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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

*´ਏਓ`*•¤ღ¤•*´ਏਓ`*•¤ MEDO DO MEDO *´ਏਓ`*•¤ღ¤•*´ਏਓ`*•¤*



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Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós.

Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não entendemos
porque não queremos passar por tolos.

Temos amontoado coisas, coisas e coisas,
mas não temos um ao outro.

Não temos nenhuma alegria
que já não esteja catalogada.

Temos construído catedrais,
e ficado do lado de fora,
pois as catedrais que
nós mesmos construímos,
tememos que sejam armadilhas.

Não nos temos entregue a nós mesmos,
pois isso seria o começo de uma vida
larga e nós a tememos.

Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de
nós que por amor diga: tens medo.

Temos organizado associações e clubes
sorridentes onde se serve
com ou sem soda.

Temos procurado nos salvar,
mas sem usar a palavra salvação
para não nos envergonharmos de ser inocentes.

Não temos usado a palavra amor para
não termos de reconhecer sua contextura de ódio,
de ciúme e de tantos outros contraditórios.

Temos mantido em segredo a nossa morte
para tornar nossa vida possível.

Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença,
sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.

Temos disfarçado com o pequeno medo
o grande medo maior e por isso nunca
falamos o que realmente importa.

Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez
de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.

Não temos sido puros e ingênuos para
não rirmos de nós mesmos e para que no
fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”
e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.

Temos sorrido em público do que não sorriríamos
quando ficássemos sozinhos.

Temos chamado de fraqueza a nossa candura.

Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos

a vitória

nossa de cada dia…


- Clarice Lispector -

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